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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Fátima e Caio, uma história de amor.

Fátima ao contrário da maior parte das crianças de sua idade é apaixonada pelo tempo chuvoso. Ela observa por horas incalsavelmente, as gotas que artisticamente escorrem por sua janela pequena... As redesenha com seus dedos pequeninos e curtos, olhando para a magnitude do céu, tentando desvendar de onde elas vem... Pela janela do seu mundo limitado, consegue avistar nem muito próxima nem muito distante uma outra pequena janela...Nela haviam rachaduras, portanto a tempestade também poderia estar dentro daquele lar. E somente quando chovia ela podia ver o menino com olhos brilhantes, desfocado pelas lágrimas que caíam sem cessar de nuvens negras com formas de animais. Com o verão também se foram as inesperadas chuvas tórridas de final de tarde, e Fátima não viu mais o menino, nem seu martelo, nem as tábuas, nem os pregos, nem os panos, nem a silhueta magra de uma mãe desesperada, nem um meio olhar,nem um meio sorriso (que ela nem sabia se era ou não para ela). Fátima se entristecia a cada manhã de cor que a contemplace, afinal não podia ouvir o coachar dos sapos, não sentia a fragrância doce da terra úmida, não podia enxergar o sorrir das plantas, não podia ver a água se esvair feito riacho sob o meio fio. Até que, o céu se fechou e se mesclou, enfim choveu...Imediatamente Fátima se postou na janela, desenhou corações com seus dedos, mordeu lábios ajeitou madeixas e esperou. Ele a olhou timidamente, tocou sua janela como se finalmente tocasse seu rosto, e sumiu... A noite fôra uma tortura, trovões invadiam o quarto e coração da menina. Ela pressentiu algo ruim, aquele vento frio que sopra por dentro de nós sorrateiro...A dor sinalizava incessante, até que adormeceu. Acordou e ainda chovia, dentro e fora de si. Encontrou em seu portão uma pequena garrafa, e um bilhete, encharcado também de mistério. “Nessa garrafa guardei uma gota de chuva a cada noite em que pude lhe ver. Antes dessa água secar eu vou me casar com você.” A menina arrepiou-se. Durante cinco longos anos esperou qualquer sinal, e ele vinha somente agora. Se encheu de coragem e ousadia, correu até a casa dele, tocou, bateu, implorou, mas a casa estava vazia...Haviam se mudado. E agora só restara o bilhete amassado, e a chuva engarrafada dos dois. Não haviam endereços, explicações. Apenas sentimento, cultivado sob o silêncio. Nos anos que se seguiram, Fátima tentou buscar informações que a levassem a encontrar Caio. Não obteve sucesso. Seguiu a vida alheia a amores. Mas a fagulha de esperança sempre teimava a lhe importunar, quando pensava não mais encontrar pureza nesse mundo vil. Porém não pensava mais que Caio cumpriria sua promessa infantil, que se perdeu no tempo e espaço. A realidade não permite ensaios. Mas quando a chuva se aproximava, ela lembrava da janela, das rachaduras, dos corações, dele! Relia ainda o velho bilhete borrado, observava nostalgicamente a janela do outro lado da rua, que nem era mais a mesma, que nem era mais a dele. A moça decide então, passar uns tempos longe pra tentar sanar vazios e descontentamentos...E escolhe Seattle, aonde teria chuva sempre que sua alma precisasse dela. Ainda redesenhava gotículas em sua nova janela, que só avistava outras janelas estranhas, desconhecidas, distantes. Será que o tempo ia mesmo se esgotar? Não haviam nem retratos nem certezas...Só uma ampulheta vital aonde se esvaiam dias, meses, anos, temporais e esperanças anêmicas. Como poderia amá-lo assim? Após quatro longos anos convencendo-se do jovial, do insensato e do fim, era hora de retornar. Ventava demasiado, não conseguiu desviar a teimosia de seu olhar. Era a janela que o pertencia. Ao abraçar calorosamente sua mãe em uma saudade de anos, recebeu uma caixa, datada de quase um ano atrás, com um endereço e com o nome que mais gostaria de ler...CAIO. “Nessa garrafa guardei uma gota de lágrima a cada noite que não pude lhe ver. Antes da próxima chuva eu vou me casar com você.” Ela já não se continha, e para que? Largava as malas e chorava, sorria, cantava e quem compreendia? Afinal, os apaixonados são viscerais, são revolucionários nesse mundo de desamores. Pegou o fusca empoeirado do vovô, atravessou São Paulo e seus medos, foi atrás dele.Olhou para uma nova janela vazia, trovejava, tudo estava cinza. Bateu na porta incessantemente, até que um belo rapaz surgiu no segundo andar da casa, redesenhando corações e sorrindo. Agora Fátima de pernas bambas, sentia o trepidar em seu peito, um verdadeiro panapaná de borboletas em seu esôfago, como se fosse morrer e viver intensamente. Ouvia os trovões e tentava prever a quantidade de passos que faltavam para seu coração lhe dar uma trégua. E se tudo mesmo não fôra um sonhos bestial de criança? E como poderia amar com tanta veemência um alguém que nem ouvira a voz? Seria só um platonismo surreal? Enquanto seus pensamentos escorriam por sua cabeça confusa, os pingos começavam a molhar o fusca, a face, as flores, o asfalto, os cabelos negros, e a incerteza do depois. Caio lhe sorriu mais uma vez, feito aqueles dias chuvosos que se passaram, segurou sua mão e disse espantado: “A próxima chuva demorou muito tempo...Achei que ela não viria mais...Há tanto tempo queria lhe dizer, mas não tive chances, era apenas um menino medroso...” Caio contou a Fátima que sua mãe era enfêrma, acabou enlouquecendo e mudaram-se para o interior. Posteriormente com sua morte, ele foi estudar na Europa,e ao voltar não sabia mais como encontrar Fátima já que não havia resposta alguma há mais de um ano...Ela emocionou-se, esperou por essas respostas durante toda sua existência. Lhe contou brevemente sua trajetória, mas queria mais ouvir do que dizer... Ele lhe abraçou tímido, disse que havia estudado Metereologia por sua causa, e que a cada vez que o céu apontava uma tormenta, ele sorria por dentro e se lembrava dela... Agora já chovia consideravelmente, um silêncio se postou entre dois amantes, as bocas podem ser lacônicas quando os corações gritam, beijaram-se. Derreteram-se em gotas e satisfação, sucumbiram... “Me apaixonei novamente por você.” “Fátima, se eu lhe contar...Eu mesmo fazia rachaduras nas janelas para ter que consertá-las sempre quando chovia... Eu já tinha convicção de que você estaria lá. E como cuidar de minha mãe era uma tarefa constante, era o único momento em que eu tinha um forte álibi para permanecer ali...” Foi aí que ela teve certeza. Ele também a observava, ele também cultivara esse amor desde os primórdios. Ele quis até mesmo transformar as mudanças climáticas em profissão. Manteve sua expectativa no amanhã. E tantos foram os caminhos que se seguiram, tantas escolhas que teceram esse desfecho. E agora se fazia necessário conviver e se descobrir, na magia e na complexidade de se relacionar, de viver, de sentir. Lutar contra a monotonia, rir das diferenças, transformar o dia a dia. “Agora você vai saber que gosto de música clássica, sou uma bióloga fissurada por insetos, que detesto banhos gelados , que adoro pêras e detesto lençóis brancos...Que prefiro Machado de Assis à qualquer outro, e que durmo tão leve que o menos ruído me faz despertar...Que dirijo devagar feito velhinho, e que costumo chorar em filmes do Chaplin...Que sorrio engraçado e que não consigo cozinhar nada comestível...Que sopro sinais para que eles se abram e observo as cores dos muros enquanto estou no coletivo...” “E que você possa saber que sou Flamengo fanático, que gosto de me sensibilizar com os retratos do Sebastião Salgado, e que detesto barulho de alarme de rádio relógio. Que simplesmente adoro pizza de calabreza, que gosto de Chico, de Gal, de Caetano...Que adoro ventos alísios e precipitação das nuvens...E odeio televisão e virtudes distorcidas...E gosto de seus cabelos esvoaçantes, teu olho fazendo gracejos sutis, tua maneira engraçada de subir na bicicleta e seu jeito peculiar de dizer alô...” Entrelaçaram-se, uniram-se em sonhos. Noites e dias passaram-se. Ora chuva, ora Sol, ora nada. “Vou cumprir minha promessa, meus olhos de chuva...” – resolveu escrever mais um bilhete, e enviar duas alianças. “Nessa garrafa guardei cada pedaço do meu amor. A água para mim jamais secou.” Fátima e Caio casaram-se em Março. Onde as águas estavam fechando o verão...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu já não choro mais, eu só ignoro, um surdo em um concerto.
Tenho medo de acordar porque sempre é a hora mais difícil, de olhar a luz e procurar ânimo para encarar 24 horas de estupidez humana, congestionamentos, ilusões, sonhos desfeitos, desafetos, desagrados, decepções e telefones intermitentes.
A noite quando a vida se cala, onde sou só eu e meus devaneios, me sinto melhor...